Reflexões e trabalhos realizados no âmbito do Mestrado em Educação, área de especialização em Educação e Tecnologias Digitais, da Universidade de Lisboa (2012-2014).

Educação e Tecnologias Digitais

Reflexões e trabalhos realizados no âmbito do Mestrado em Educação e Tecnologias Digitais.

Inovação e Mudança

Falando de TIC e inovação curricular acho interessante a distinção entre inovação e mudança. Por vezes, falamos tanto nestes termos mas não os distinguimos verdadeiramente, confundindo-os quase sempre. Na realidade, nunca tinha pensado verdadeiramente nessa distinção.

O facto é que, falando de educação, penso que nem toda a inovação se traduz em mudança (pelo menos exterior) e nem toda a mudança é resultado de inovação. Ou seja, um professor que seja exemplo de boas práticas nem sempre consegue transmitir o sentimento de inovação à sua escola. Por outro lado, uma escola que decida dotar os seus espaços com equipamento informático ou tecnológico de outro tipo, por si só não está a garantir inovação. Pode, quando muito, facilitar essa inovação. Assim, talvez faça mais sentido afirmar-se que a mudança é mais difícil de operar do que a inovação. A inovação é um processo mais interior, reflexivo e intencional e, por isso, não é decretada. Parte, em primeiro lugar, do professor, das suas necessidades e ambições. A mudança é um processo de avanços e recuos, de aquisição de novos códigos e condutas. O problema é que muitas vezes se tenta fazer a mudança à força através da inovação também à força.

Dos modelos referidos sobre inovação e mudança (Fullan, 2001; ACCOT, 1990; Rogers, 1995) achei interessante a reflexão que inevitavelmente fiz sobre cada uma das fases. Sem dúvida já passei a fase de conhecimento e adoção concentrando-me agora em aplicar muitos dos saberes adquiridos ao nível do domínio das ferramentas numa perspetiva de «como fazer».

Outro assunto interessante discutido foi o das ferramentas tecnológicas. Aqui há que distinguir o seu domínio técnico e a sua aplicação pedagógica. Esta distinção levou-nos à questão da formação. Para dominar tecnicamente uma ferramenta é necessário tempo e uma grande dose de autoaprendizagem. Existem muitas ofertas formativas neste campo mas já escasseiam as ofertas de formação de qualidade sobre o «como usar», ou seja, a aplicação na prática pedagógica de cada professor. Muitos não assumem mas sentem-se perdidos quando confrontados com uma nova ferramenta à qual reconhecem potencialidades mas da qual não sabem como retirar totalmente esse potencial pedagógico, aqueles pequenos pormenores práticos que por vezes fazem toda a diferença. No fundo, trata-se de desenvolver o núcleo do conhecimento tecnológico e cruzá-lo de forma coerente com os núcleos científico e pedagógico (Mishra & Kohler, 2009).

Num altura de dificuldades é natural que o enfoque formativo se torne menos formal e se desloque mais para a partilha a nível de escola ou, num nível mais alargado, para as comunidades de prática, mais ou menos organizadas. Sou favorável a que se comece pelo próprio local de trabalho. Partindo do princípio que todos os intervenientes passam pelas mesmas angústias e incertezas, porque não tomar como base o que cada um já sabe e domina de forma a enriquecer os colegas?

Deixo aqui duas citações que explicam muita da resistência à inovação e mudança na escola e que me chamaram a atenção pela sua veracidade. Ainda que tendencialmente venha a diminuir, a cultura de individualismo e reclusão ainda está muito presentes na cultura escolar.

“Ensinar é um empreendimento solitário. Os médicos discutem os diagnósticos dos pacientes; os advogados de defesa e de acusação analisam os julgamentos; os atletas profissionais estudam videogravações dos seus competidores; os artistas escrutinam as telas uns dos outros; e os escritores revêm habitualmente o trabalho dos seus colegas. Os professores, pelo contrário, funcionam a quarentena profissional, raramente tendo a oportunidade de observar outras aulas, comparar convicções, trocar pontos de vista e considerar opções” (Albano Estrela, 1992, citado por Sousa, 2000, p.16).

“É a solidão, o que chega a ser algo incompreensível e até caricato, partindo-se do princípio de que falamos de uma profissão onde o trabalho colaborativo é, ou deveria ser, fundamental. No entanto, o professor tem uma enorme e doentia propensão para o individualismo. Trabalha sozinho e à porta fechada, dentro e fora da sala de aula. Fecha-se em si próprio e dificilmente aceita a crítica, ainda que construtiva” (Palha, 2007, p.144).

Referências:
Chagas, I. (2012). Inovação e Mudança com as TIC. Webconference. Apresentada a 6 de dezembro.
Sousa, J. (2000).O Professor como Pessoa – A dimensão Pessoal na Formação de Professores. Lisboa: Edições Asa.
Palha, J. (2007). Potencialidades e constrangimentos da profissão docente: um testemunho. In Flores, M.A., & Viana, I.C. (Orgs.), Profissionalismo docente em transição: as identidades dos professores em tempos de mudança. Braga: CIEd.

Paradigma sócio-critico
Potencial transformador das TIC